Darq visita comunidade quilombola em Ipanguaçu

Notícia publicada em 12/08/2025Gerais
Aryela Souza de Ascom CT/UFRN

O Departamento de Arquitetura (Darq), vinculado ao Centro de Tecnologia (CT/UFRN), visitou entre os dias 8 e 9 de agosto, a Comunidade Quilombola de Picadas, localizada em Ipanguaçu (RN). Esta é mais uma etapa do projeto de extensão Assessoria Técnica às Comunidades Quilombolas do Rio Grande do Norte e da Paraíba. 

Equipe do Darq, lideranças e moradores de Picadas em frente à casa sede da comunidade, em Ipanguaçu – Foto: Darq/UFRN

 

A visita foi coordenada pelos professores Eunádia Cavalcante e José Clewton do Nascimento, junto ao mestrando do PPGAU, André Luiz de Melo Sousa. A ação é fruto da parceria com o Centro de Documentação e Comunicação Popular (Cecop) e foi realizada com o apoio da Chefia de Gabinete da Prefeitura de Ipanguaçu, responsável pela limpeza do terreno em torno das edificações.

A atividade consistiu no levantamento arquitetônico para recolher o restante das informações referentes à casa sede e ao armazém, onde será desenvolvido o projeto de um memorial. Na ocasião, a equipe também conversou com lideranças e moradores para coleta de dados sobre o local que devem embasar o apanhado histórico e a proposta arquitetônica de ressignificação desses espaços.

Ao longo do tempo, o armazém exerceu diversas funções na comunidade. Originalmente, guardava máquinas, equipamentos agrícolas e sementes. Depois, passou a servir como escritório de administração e contabilidade da antiga propriedade.

Além disso, abrigou também a escola, na época em que o prédio original não garantia segurança para professores e estudantes. Foram feitas adaptações no armazém para que a cozinha escolar também funcionasse no local. Lembranças como essas, relatadas por moradores, devem compor a expografia do futuro memorial.

Ao final, foi realizada uma reunião para apresentação da proposta do projeto para a casa sede. De acordo com a comunidade, a casa deve fornecer edificações de apoio ao turismo de base comunitária no local, incluindo a hospedagem. Portanto, a equipe propôs a adaptação da casa sede para que seja transformada em uma pousada.

A proposta foi sustentada por pesquisa acerca do histórico, do tipo de construção, das influências arquitetônicas e das modificações ocorridas com o passar dos anos, tal como a atualização dos hábitos domésticos da comunidade. A casa, segundo registros orais, foi construída em meados do século XIX e, até o momento, passou por três expansões.

O grupo busca, por meio do projeto, resgatar as características originais da edificação, que atualmente sofrem com a deterioração do tempo e a falta de conservação. Além disso, devem ser incluídos banheiros que atendam a demanda dos futuros hóspedes e adaptação de ambientes que serão transformados em quartos, locais de lazer e de refeições.

Picadas

A comunidade recebeu o nome de Picadas por ter sido povoada pelos camponeses ao longo do caminho que seguia para a casa do Major, abrindo “picadas” de passagem pela mata. Localizada a 10 km de Ipanguaçu, hoje, é constituída por 139 famílias. Em 1845, o Coronel Ovídio Montenegro, líder político de prestígio na região, construiu a casa sede ou “casa grande”, que passou a pertencer ao Major Manoel de Melo Montenegro, responsável pela emancipação política do município, a partir de 1948.

Equipe durante visita a uma das residências da comunidade – Foto: Darq/UFRN

 

Moradores relatam que até a década de 1990, o Major ditava as regras na fazenda, controlando o direito de ir e vir das pessoas e cobrando metade de tudo que era produzido, com a prerrogativa de escolher os melhores produtos e estabelecer preços. Ele não permitia a construção de casas de alvenaria pelas famílias de trabalhadores e impunha limites à criação de animais, entre outras restrições.

A partir da constatação de que os camponeses que trabalhavam na fazenda do Major eram descendentes de escravizados, iniciou-se a luta da Associação de Moradores da comunidade pelo reconhecimento do quilombo. Até que, em 2010, a Fundação Cultural Palmares (FCP) registrou Picadas como quilombo remanescente.

Atualmente, o quilombo se organiza em associações atreladas à agricultura e ao artesanato, apoiadas pelo Cecop. Os moradores desenvolvem o projeto do Museu Quilombola da Picada, que visa o protagonismo local para o resgate e a valorização da cultura e da memória quilombola na região.

Além disso, são realizadas ações de educação patrimonial com alunos e professores da escola pública, colaborando com a aprendizagem e a inserção de conteúdos afro-brasileiros na sala de aula.

Até hoje, a comunidade apresenta opiniões divergentes relativas à figura do Major, desde autoridade e respeito à raiva e indignação. Apesar disso, compreende-se que a casa onde ele residia deve ser recuperada e incluída no projeto do museu, por fazer parte da história de resistência das famílias que lutaram pela posse daquelas terras.

Em 2024, com o apoio financeiro da prefeitura de Ipanguaçu para deslocamento e alimentação da equipe – obtido pelo parceiro Cecop –,  foi feito o levantamento arquitetônico da casa pela equipe do Darq.

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