Darq visita aldeias indígenas de João Câmara
Notícia publicada em 18/06/2025GeraisO Departamento de Arquitetura (Darq), vinculado ao Centro de Tecnologia (CT/UFRN), visitou, nos dias 14 e 15 de junho, as aldeias Amarelão, Santa Terezinha, Serrote de São Bento, Açucena e Marajó, localizadas no território Mendonça, no município de João Câmara. Trata-se da quarta ação do projeto de extensão Grupo de Assessoria Técnica em Habitação de Interesse Social (ATHIS).

A iniciativa é resultado da parceria com o Fórum Interinstitucional de Promoção de Direitos Indígenas (FOINPDI/RN), por meio da juíza e coordenadora do Centro Judiciário de Solução de Conflitos e Cidadania da Justiça Federal (Cejusc/JFRN), Gisele Maria da Silva Araújo Leite.
A visita foi coordenada pelos docentes José Clewton do Nascimento e Eunádia Cavalcante, acompanhados pelas discentes do curso de Arquitetura e Urbanismo, Maria Eduarda Rodrigues da Silva e Luiza Siqueira Cavalcante. O deslocamento da equipe foi proporcionado pela prefeitura de João Câmara, atendendo a solicitação da FOINPDI.
No sábado, a equipe esteve presente na comunidade Amarelão, onde foi recebida pelo cacique Carlos Potiguara, da Associação Comunitária do Amarelão (ACA). A princípio, o representante informou-os sobre o território, a cultura, os festejos locais, a prática do turismo ecológico e a principal fonte econômica da comunidade: o beneficiamento da castanha. Em seguida, apresentou problemas de infraestrutura relacionados ao abastecimento de água, que afetam a saúde das pessoas e a produção agrícola devido à falta de salubridade.
O cacique mostrou ainda o local escolhido pela comunidade para a implantação de uma oca de apoio às trilhas culturais e de uma quadra de areia para a prática esportiva. Apontou também a necessidade de propor um modelo de barraca para o beneficiamento de castanhas que melhore as condições de trabalho e direcione a fumaça produzida na queima das sementes.
Na comunidade Santa Terezinha, a equipe foi recebida pelo cacique Dioclécio Bezerra da Costa, na Escola Municipal Indígena Saramandaia, onde ocorreu uma atividade de capacitação de professores focada no respeito e valorização da identidade dos povos indígenas. O cacique apresentou o terreno escolhido e a demanda por uma oca que funcionará como espaço multiuso, tanto como extensão para as atividades da escola quanto para reuniões da associação comunitária.
A oca deve resgatar técnicas tradicionais indígenas, aliadas a soluções contemporâneas que garantam maior durabilidade e conforto aos usuários. Após o percurso, a equipe do Darq/UFRN participou de um almoço coletivo com os professores presentes na escola.
Na comunidade Serrote de São Bento, a equipe foi recebida pela cacica Rejane Batista da Costa e por Ismael, que apresentou o prédio da associação comunitária, cujas dimensões são consideradas insuficientes para a realização das atividades culturais da aldeia. Foi solicitado, então, o projeto de uma oca que funcionará como extensão do prédio, resgatando técnicas tradicionais e utilizando materiais locais, como madeira da aroeira e do pereiro, além de cobertura em palhas de carnaúba ou coqueiro.
Já no domingo, a equipe visitou a comunidade de Marajó, sendo recebida pela liderança Kaline Bezerra Felipe, da Associação Indígena de Marajó (AIM). Semelhante à demanda de Serrote de São Bento, a aldeia pretende construir uma oca em frente ao prédio da associação que favoreça a realização de ritos e atividades culturais.
Por fim, na aldeia indígena Açucena, a equipe foi recebida pela liderança Maria de Fátima Batista. Na antiga sede da fazenda Buraco Seco funcionam atualmente a associação comunitária, o atendimento à saúde e os ritos religiosos. É desejo da comunidade que a casa seja reformada para melhor atender às necessidades do povo. A equipe realizou o levantamento arquitetônico e fotográfico da edificação para possibilitar o desenvolvimento do projeto de reabilitação do prédio.
De modo geral, observa-se em todo o Território Mendonça a vontade de possuir uma edificação símbolo da cultura indígena, como a oca coletiva, construída em referência às técnicas indígenas tradicionais. Hoje, as comunidades são formadas por construções em alvenaria de tijolos. Portanto, a oca será um símbolo de distinção e reverência à construção indígena ancestral.
Com os projetos em mãos, as comunidades devem buscar meios de conseguir recursos para a execução. Os equipamentos, uma vez construídos, devem contribuir para o desenvolvimento socioeconômico das comunidades.
Território Mendonça
De todos os grupos, os Mendonça são os mais numerosos. São mais de 1.100 indígenas, cerca de 340 famílias, distribuídas em vários territórios, segundo o Censo Comunitário realizado em 2018 pela Associação Comunitária do Amarelão (ACA). As comunidades indígenas estão localizadas nos municípios de João Câmara, Jardim de Angicos e Natal, nos bairros de Nova Natal e Nova Descoberta.
O território Mendonça situa-se na região do Mato Grande e é composto por seis comunidades indígenas: Amarelão, Santa Terezinha, Serrote de São Bento, Açucena, Marajó e Cachoeira. Esta última localiza-se no município de Jardim de Angicos/RN, enquanto as demais estão situadas em João Câmara/RN. O processo de demarcação do território foi iniciado pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (FUNAI) em 2013.
A aldeia Amarelão é caracterizada como aldeia-mãe do Território Mendonça por ser o núcleo central e estar presente desde o início do processo de organização do movimento indígena no estado. Apesar de cada comunidade possuir suas particularidades, todas apresentam características comuns, como o trabalho com a cadeia produtiva da castanha de caju, principal ocupação e fonte de renda das famílias.
No âmbito da organização social e política, as aldeias criaram, em 2016, o Fórum de Lideranças Mendonça, espaço de discussão coletiva destinado a apresentar suas reivindicações conjuntas ao poder público. Vale ressaltar que cada comunidade indígena tem sua própria forma de organização, garantindo o princípio da autodeterminação dos povos.
Edição: Vilma Torres; Revisão: Beatriz de Azevedo.
